domingo, 9 de fevereiro de 2014

Maldição da Estética.


Estética : s.f. Ciência que trata do belo em geral e do sentimento que ele faz nascer em nós; filosofia das belas-artes.



Quando li esse significado uma ponte desabou sobre minha cabeça, em sua essência a estética não se assemelha em nada ao conceito atual que temos dela, vai além das milhares de clínicas que vejo por aí, das cirurgias plásticas, dos produtos de beleza, das academias...
Somos constantemente bombardeados com a ideia de estética ideal, um ritual, uma compulsão, uma tristeza eminente disseminada em nossas almas. Lá está a beleza; uma escultura gelada em um enorme pedestal, imóvel... E morta! 
A cultuamos como bons fieis, ela tem poderes sobre-humanos, características perfeitas, caráter inquestionável. Ela é uma deusa ou a endeusamos?
 Quando encaro o espelho procuro o reflexo da escultura, é como um tapa na cara, cada traço diferente da deusa é um defeito, imperfeições que assombram, machucam por dentro..
O quão doentio lhe parece sermos todos assim? Qual o verdadeiro significado da beleza física quando ela vai se deteriorar com os anos? Nossa pele será machucada, envelhecida, talvez destruída e um dia a terra sob nossos pés irá comê-la. Todo o esforço para conserva-la será em vão, todo o valor será nulo, perdido no tempo, no nada.
Ao envelhecermos a textura da pele será lembrada apenas em fotos amareladas, ou daqui há alguns anos, em máquinas, hologramas, mas no fim, será apenas uma lembrança! Os cabelos bem arrumados, as roupas estonteantes, o esculpimento do corpo, unhas, músculos, dentes; tudo é visto como essencial, por que uma luta tão injusta? Visando que o inimigo é quase cósmico, mítico. Seres humanos; eu só os enxergo por fora, a carne frágil, exposta, solitária...
Se pudéssemos ver além, enxergar a vida em si, o funcionamento dos órgãos, das células, o sangue pulsante nas veias, aconteceria um surto de amor? Eu poderia romper as correntes da estética? Poderíamos tocar uns aos outros verdadeiramente? Entregar-se aos instintos carnais mais primitivos?  Derrubar a escultura da beleza, o que seria do mundo? O que seria de nós? Acordaria sem rejeitar minha pele? Os homens poderiam só pentear seus cabelos ou alisar suas as carecas sem pesar? As mulheres poderiam jogar fora as listas de obrigações estéticas? Ou o mundo seria um colapso? Onde se encontra o meio-termo? Ou a raça-humana não tem um?
 O reflexo nunca será o bastante, ele jamais será o retrato-falado da beleza, comemos merda para nos sentirmos belos, desperdiçamos vida, desperdiçamos alma, coração, sangue, suor, vitalidade e até uma existência inteira em busca da beleza, e o mais cruel; jamais nos sentimos plenos, pelo contrário, parece existir um coro de vozes nos atormentando, lembrando de cada defeito, pode existir paz de espírito nesse meio?
 Dizem que a beleza desperta amor, paixão, afeto, solidariedade, tudo o que há de bom na vida. Olhemos o mundo, nós estamos bem? Estamos saudáveis? Estamos em paz? Estamos felizes? Há toda uma tristeza por trás do mito da beleza. 

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