quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Contramão


Olhe para mim, eu estou na contramão. Tenho renascido como uma fênix todos os dias, mas decaio logo em seguida. Eu estou exausta, estou lutando contra minha natureza, por mais que insista, que tente seguir com minha vida, essa não sou eu, eu sou o inferno por trás destes olhos verdes.
Sente-se aqui comigo, ao menos uma última vez, você não percebe; mas o contraste de nossas peles é apaixonante. O cheiro, o gosto, o contorno e até os gemidos formam uma bela obra de arte, uma pintura no escuro. Perde-se dentro de mim, investe violentamente contra meu corpo, sonhei com teus carinhos, lutei por ti com todas as minhas forças, sufoquei a dor, porém, eu danço nos salões da insanidade, cedo ou tarde tenho de retornar, vestir-me com um luxuoso vestido e abrir os braços para o fim. Dói me ver sangrar? Dói ver uma jovem alma desfigurando-se diante dos olhos?
As pessoas sabem que estou partindo, algumas lutam arduamente para me trazer de volta, outras riem, alguns dizem que sou tola e fraca, então para agradar o mundo eu resolvi ao menos tentar, desde pequena disponho-me a agradar a todos, a tal ponto que venho tentando de forma insensata ignorar-me, dar a volta por cima, tornar-me saudável, quer uma verdade? Eu nunca quis sobreviver, nunca quis continuar, é apenas medo e vergonha do mundo, tenho lutado para ser o que eu acho que o mundo espera que eu seja, mas uma boa alma me disse ‘’ Eles querem que você seja o que você realmente quer ser.’’ E se eu disser que eu quero ser o fim? E se disser que cada dor, que cada caminho errado, cada perda só me leva para um sofrimento mórbido. Me alimentei de sonhos para ter motivos para continuar, quis ser lutadora, quis ser escritora, quis viver de amor, quis viver de dor, no entanto, todos os caminhos acabam em mim mesma, em uma decepção profunda, em uma exaustão corrosiva, tenho sido um peso morto, cobrindo-me de falsas esperanças, felicidades temporárias. Ultrapassei o limite ainda menina, a realidade cinza pintando o céu, a criança dizimada, ou só uma criança que optou pelo fim, e se esse for o destino? O meu destino? Tenho lutado em uma guerra perdida, tenho esperado pela minha vala, o meu reinado de paz, confrontam-me: ‘’ E se não for o fim?’’ Eu prefiro Darwin, a seleção natural entende? Onde os fracos não tem vez, onde alguns animais nascem fora do caminho, então morrem. Alguns são canibais, outros são violentos, alguns insanos, a natureza se encarrega de nos deletar. Tenho sido um animalzinho teimoso, agarrando-se à vida tolamente. Talvez eu viva para sempre, talvez Deus espere que eu me conserte, no fundo ninguém pode me entender, minhas obsessões, meus medos, meu passado, minha desgraça, meu egoísmo... Cada ser humano é único, sou preguiçosa demais para viver? Estou fazendo hora extra desde que nasci, ao todo são quase dezoito anos, mas estou com medo, pode acreditar em mim? E me amar por ir? Me incentivar a partir? Tem sido um inferno estar aqui, mesmo vivendo as mais belas experiências humanas...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Juno



Sua vida é uma grande história de amor, cada detalhe borbulha emoção, está constantemente fazendo belíssimas danças sobre dolorosas chamas. Sorrisos e lágrimas enfeitam o espetáculo, corpo e alma vulneráveis ao mundo, movimentos profundos, insaciáveis, ora ritmados, ora descontrolados. Sua arte é tão apaixonante como repugnante, ela nunca para, mudam-se as cores, as estações, os sentimentos, mas continua como se dependesse disto para sentir-se viva.
É amada, e amante, um ser que desperta desejo sob véus de emoções, é seu prazer vê-lo sorrir, vê-lo amar, como também é seu prazer vê-lo odiar e destroçar. Vive levando-se a loucura, tem olhos insanos, e seu equilíbrio é perder-se. Deseja-o com uma força descomunal, odeia-o secretamente, paixão é sua energia vital. 
‘’Eu sopro vida, e também sopro morte. Curo e causo dores, rastejo-me aos teus pés, ou apunhalo-te as costas. Sou mutável, navego em águas turbulentas, jamais permaneço no mesmo lugar. Tenho o odor de uma rosa, e um sabor deveras picante, queimarei tua língua, amarei teus defeitos, mesmo que me faça sangrar mágoas, não para sempre, nunca! Cicatrizo-me com facilidade, torno-me o fogo das minhas dores, não sou mais a mesma, surge em mim a próxima face, boa sorte, recomeçamos!’’ 

Abre o peito diante da plateia e mergulha no prazer sombrio de ser tocada, permite-se ser destroçada  fazendo com quem espremam seu coração com as mãos, envolve o agressor em um leve desespero, seus olhos cristalinos invadem várias almas, roubando-as aos pedaços, refazendo-se da dor, renascendo no outro, morrendo de amor.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Exaustivo


Até minha alma tem a marca dos teus dentes, hematomas espalhados no corpo todo me fazem querer gritar, você me faz querer gritar. Causa-me tanta dor, e tão violentamente, são como socos na cara, ponho-me a chorar baixinho quando estou ao seu lado, tamanha é a confusão dentro de mim.
Envolvo-no em um abraço desesperado, teu cheiro atrofia meus músculos, aperto mais, respiro fundo e uma lágrima cai enquanto você ri de algo na televisão. Encolho-me como uma menininha nos teus braços, imploro a mim mesma que não necessite tanto de ti, mesmo respirar parece desnecessário quando estou aprisionada em você, protegida do resto do mundo, desejando ser completamente tua!
Tranca-me no quarto por uma noite, acorrenta-me por dentro, a loucura existente em mim está sempre pedindo por mais, ainda que doa, ainda que seja o fim, ainda que seja por pouco tempo. 
Procuro constantemente pela proteção que não podes me dar, pelo carinho que não me tens, pela paciência que não queres ter, rastejando-me pálida, encobrindo este coração com o pó da derrota, alimentando-me solitariamente dessa paixão malcriada. 
Meu céu, meu inferno, obriga-me a ser forte perante a tanta insensibilidade, esmaga a pele que não tenho, cospe no meu drama recorrente, pisa na minha dor e me beija cheio de amor. Quero agora, queres depois. Me faz esperar, me faz solitária, me faz diferente, é uma prova de resistência te amar. É exaustivo pra caralho te amar! 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Papai

 Enquanto meus ossos cresciam eles doíam
   Eles doíam muito
          Eu tentei muito ter um pai
            Em vez disso tive um papai (8)


Eu sou a garotinha bonitinha, a menininha dos cachinhos dourados, olhos esverdeados, a doçura em meus olhos é sua papai, você está mesmo disposto a destruí-la para satisfazer teus desejos mais íntimos? Papai, eu sou tão menina. Papai, você vai me enlouquecer. Papai, você vai me sujar.
Você sabe quantos anos eu tenho agora? Sabe o que fez com meu cérebro? Sabe que está profundamente enraizado na minha pele? Sabe que estou rejeitando a mim mesma tentando tirar você de mim? De dentro de mim? Consegue dormir em paz? Você sofre como eu? Caralho, ao menos você sofre? Onde está toda sua audácia agora, responda-me!

Estupre-me com suas palavras papai! Não pode ser pior do que você já fez! Olhe dentro dos meus olhos, olhos de menina perdida, devolva-me o controle, o controle da minha vida, o que você me fez perder enquanto se satisfazia com jogos doentios. 
A pele intacta que você tocou, está destroçada. Cicatrizes escritas com sangue, crueldade e loucura. Usou deste corpo para vingar-se do mundo, vingar-se de si mesmo, vingar-se do fruto concebido de uma tragédia sentimental. 
Afinal, papai você machuca tudo que ama. A vida toda tem machucado as pessoas ao seu redor, principalmente as quais você se importa. Todo o seu ser é destruição, dedos ácidos, olhar perdido, esbanjando cinismo, só de olhar me dói. 
Fez desta menina a encarnação da tua loucura, enfiou todas as suas dores em mim, estrangulou minha inocência, não suportou tamanha doçura sendo sangue do teu sangue, precisou costurar-me a tua maneira. Eis aqui o bode expiatório, metade sua, metade minha, por vezes não sei a quem recorrer. 
Sua voz martela incansável : Putinha, mentirosa, cínica, louca, safada, sem caráter, leviana, malvada, ruim, prostituta. Mas tudo que me dissestes papai, era você o tempo todo, projetou em mim os conceitos sobre si mesmo. 
Cuspiu um conceito de amor tão esdrúxulo, de fato não ama nem a si mesmo. Os fantasmas dos teus erros te perseguem, pois ele também me perseguem. Fez de mim, uma versão de si próprio. Por que tanto egoísmo? Mesmo que morra, vai permanecer vivo na minha alma, atormentando-me, perseguindo-me. 
Tua linda garotinha, papai. Jorrastes sêmen dentro dela, manipulou, quebrou, machucou, torceu, sufocou. Tarde demais para pedir perdão, tarde demais para arrepender-se, tarde demais para retomar o controle. 

Um beijo e um abraço da filhinha que o odeia!


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Desejo do Outro







- Olhe dentro dos meus olhos enquanto entra dentro mim!

Sua doçura parecia ter derretido sob meus braços, os olhos selvagens engoliam-me, curvava  os ombros para trás como se estivesse padecendo de algum mal, o corpo parecia elástico, a pele alva roçava-se enfurecidamente na minha.  As longas pernas entrelaçaram-me de um modo sufocante, mas prazeroso.
Teus gemidos eram melódicos, profundos, dolorosos, apaixonados. Olhei dentro dos olhos dela, sorri de canto, começava a ofegar,  ela sorriu de volta; sorriso faminto. Rasgava minha pele, unhas que mais pareciam lâminas, a dor intrínseca corroendo-me. Respirava alto, mordia os lábios, respondia minuciosamente a cada movimento meu. Exalava desejo, exalava loucura, exalava paixão.
Meu corpo pesava sobre o dela, os cabelos molhados de suor davam-lhe um ar desesperado, travava as pernas puxando-me com mais força, tinha medo de desmonta-la, uma tórrida dor estampada no seu olhar.
Aproximou os lábios do meu ouvido, quase acalentando-se, chamou meu nome repetidas vezes, a voz chorosa implorava-me, implorava a mim, você desejava meu corpo, minha alma. Paixão; é desejar o desejo do outro.
Apoiei as mãos no teu quadril, desvendei teu corpo com os olhos, um desejo voraz de possui-la de quatro, de tê-la só para mim.

- Me faça sua, mostre-me que sou sua. Diga-me que sou sua.

Esperava que eu ordenasse algo, esperava que eu pedisse algo, esperava que eu lhe dessa a segurança que eu desejava que ela fosse só minha. Segurei-a pelo quadril, coloquei-a de quatro, a visão das polpas rosadas era angelical, bunda carnuda. Dei-lhe um tapa, dois tapas, três tapas, movia o corpo quase em câmera lenta pra mim. Talvez eu estivesse apaixonado, talvez fosse só sua bunda redonda.


Um flerte com o prazer, era mais que prazer, era divino, minhas mãos apoiadas na lombar dela, os cabelos pretos balançavam de um lado para o outro, seus gemidos davam tesão, mas de minuto em minuto dava um pouco de angústia, de tão choroso. Olhou para trás, incitando-me a procura-la, eu jamais vi outra mulher desejar-me tanto. Curvei sobre ela, beijei-a, abafando os gemidos, afagando os seios, subi o tronco outra vez, enlaçando seus cabelos com os dedos, puxando-os. Não lembro-me da força, o êxtase já invadia-me, só lembro da expressão de dor, do seu clamor por mais.
 Levou uma das minhas mãos até seu sexo, abri os lábios  lentamente, fazendo carinhosos movimentos circulares. Arqueou a cabeça para trás, levantou o tronco, abracei-a por trás. Só precisei fazer aquilo por alguns segundos, até ouvi-la berrar meu nome outra vez. Suas pernas se contraíram. Mordisquei seu ombro de leve algumas vezes esperando que ela relaxasse, fui curvando-a para frente novamente, tudo em mim pulsava, foi como prender a respiração nos minutos anteriores, deixei a fera em mim tomar conta, a fera voraz  que ela insistia em dizer que eu era. Penetrei-a vorazmente, ecoando nos confins daquele corpo, balançava, gemia, suava, não tive dó naquele momento, nem por mim, nem por ela. Ambos queríamos o ápice do prazer, o ápice que de fato trás tanto sofrimento. Assim me pareceu, pois ela gritava, mas seu gritar era doce. A alma expandiu, o corpo explodiu, gozei... Soltei um grunhido, respirei fundo, ela me olhou por cima do ombro, quase que encantada, veio até mim, me beijou.  
 - Foda-me outra vez! O tempo corre... 

Sentei sobre os calcanhares, olhando-a nua, seios empinados, rosados também. Mais cansado que um burro, veio como uma leoa, empurrando-me. Deitou-me, encarava-me. 

- Enterre-se dentro de mim. 
- Literalmente ou psicologicamente? 
- Como quiser. 
- Você é louca. 
- Eu sei. 

Desceu os lábios até meu membro, resolveu tomar sorvete por ali, pois depois disso perdi a noção de tudo...Só me lembro do seu sexo molhadinho roçando na minha perna, a safadeza de um ninfeta, a delicadeza de uma menina, a loucura de uma prostituta. 
Nunca mais a vi, talvez ela tenha fugido de mim, talvez eu a tenha abandonado, talvez o mundo tenha conspirado contra nós, talvez tudo isso fosse um passatempo. Talvez tenha sido a melhor foda de nossas vidas, talvez ela seja uma puta, ou talvez ela quisesse me confundir, ou talvez ela quisesse ser minha.








terça-feira, 30 de julho de 2013

Longe

                       

                                   Não domino a escrita, não desejo-a, necessito-a. 

Engulo pílulas, silencio minha alma, fecho a única porta até lá, o coração enfraquece, vivo levemente amortecida, os sentimentos já não destroem, mas continuam machucando, feridas leves, sangram tão pouco, posso sobreviver, só não sei quero, os dias correm, repetidamente, o mesmo som, o mesmo gosto, o mesmo sol, me olham, sorriem, tudo parece tão bem... 
Não há amor, não há paixão, só há vontade, vem latente, gritante, mas morre, morre todas as noites, renasce pela manhã, vai esmorecendo.
O universo não faz muito sentido, por que as estrelas não falam comigo? Quando menina acreditava na vivacidade destas gigantescas esferas plasmáticas, imaginando-as com vida, sentimentais, intensas, felizes por terem o universo e o tempo para si. 
A vida por si só já é sofrimento, e de alguma forma, abracei-o tão fielmente, fundindo-me, há quem diga que passei a amá-lo, mentira!
Tinha medo da solidão, tenho medo da solidão, então; agarrei-o! Dediquei dias e noites, escrevi um borrão, um risco torto, uma menina fraca, pudera eu ter seguido outro caminho? Sim, quem dera tivesse mais maturidade, beijei o chão que pisava, solo abstrato e sangrento, sob as garras do sofrimento destruí a menina, doce menina, viva menina, lágrima alguma pode lhe trazer de volta! Não importa o que digas!
Escolheu seu fim, e o que restou? Memórias confusas, sentimentos efêmeros, pensamentos persistentes, um corpo adulto mergulhado em águas profundas, um corpo oco, que busca estar oco, fugindo do velho eu que insiste em voltar, repetir o hábito, se afogar... 
Ao gritar não; se afogará! Bate os pés e as mãos repetidamente, a expressão cansada, respira rápido, corre de si mesma, corre contra si mesma, olha a vida, ameaça chorar, mas não chora, ameaça viver, mas não vive. 
Lacunas que desejam ser preenchidas, cansaço sobre os ombros, melancolia, atípico da juventude, como quem sofreu por anos, voltou da guerra, perdeu um filho, ou sofre de uma doença terminal. Onde está minha vitalidade? Onde está minha paixão? Mesmo que rasgue ambos os lados da minha boca, e costure um sorriso, acabo imersa em sofrimento, em loucura, em sentimentos incontroláveis, traição, compulsão, inocência, medo, desejo, tristeza. 
Então, toda manhã, engulo duas pílulas. Toda noite, mais duas... Durmo tão bem, acordo tão bem, mas vivo tão fraca, tão alienada, sendo nocauteada por mim mesma sem sentir nada. Eu deveria escolher?  Eu deveria ter setenta e um anos? Ter filhos? Sorrir? Comer? Engordar? Lutar? Sonhar? Acreditar? Me formar? Morrer do nada ou morrer aos poucos como todo mundo? Viver loucamente? Viver inconsequentemente? Dizer adeus? Me importar mais? Me importar menos? 
E se eu pudesse ser uma máquina? As pessoas depositariam suas emoções em uma máquina? Uma máquina sem erros? As máquinas não machucam, não se machucam, elas só quebram e param. 
Fuja de mim, esqueça-me, uma névoa encobre-me agora, só fique se puder me fazer dormir, dormir para sempre, mas Deus, quem é que pode dormir para sempre? Prevalecer até a pele ficar rançosa? Não importando como? Seguindo o fluxo natural da vida, considerando que sou um animal. 
      Longe de mim por vontade própria, um dia talvez, eu seja um outro alguém.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Elise







Elise tem dezessete anos, é uma lutadora, treinou com afinco por cinco anos, deu o melhor de si, chorou de cansaço, teve inúmeras lesões, ganhou campeonatos, treina com homens, chutes altos, fortes, giratórios, solta joelhadas e cotoveladas para todo lado. Ela ama o que faz, morreria por isso, morreria sem isso. Semana passada descobriu que está com condropatia patelar, desgaste na cartilagem do joelho, é irreversível, Elise não pode mais lutar.

Elise dezessete anos, é bulímica, está acima do peso, passou cinco anos purgando o excesso de comida com exercícios físicos até conseguir lesionar todas as partes do corpo, tornozelos, pulsos, joelhos, coluna. Oscilava de cinco a seis quilos por semana, ganhava e perdia, era incansável e dilacerante.
Atualmente, tem feridas de ácido gástrico nas mãos, engole cartelas e mais cartelas de laxantes, seus cabelos fedem a vômito, dentes desgastados, feridas na garganta, a dieta da nutricionista está em cima da mesa do computador, ela tem consulta amanhã, se olhou 66 vezes no espelho hoje.

Elise tem doze anos, é a típica lolita, ninfeta dos cabelos loiros, traços juvenis, quadris bem feitos, coxas grossas, cintura fina, bumbum macio, seios pequenos, bochechas coradas, exala vivacidade, adora brincar, ler, ver televisão, colecionar álbum de figurinhas. Costuma usar sainhas de prega, ou shortinhos, cabelos trançados.
É bastante  atrapalhada, está sempre tropeçando, derrubando os livros, os homens costumam ajuda-la, não entende o porquê, não aparentemente, mas no fundo, quase que naturalmente, sabe o poder que exerce sobre eles, faz questão de abrir um belo sorriso, bem meiga. Vive uma paixão secreta com seu professor, procura incessantemente por um papel masculino protetor, angelical e demoníaca.

Elise tem quinze anos, é sua terceira internação psiquiátrica, os músculos do pescoço fazem movimentos involuntários, o haldol lhe causou distonia, chora e implora por ajuda. Os dias se arrastam, tem vários diagnósticos e no final não tem nenhum. A psiquiatra assina a papelada, quarenta e sete dias trancafiada, presa na '' Torre da Rapunzel''.

Elise tem catorze anos, bebe todos os dias, o quarto fede a pinga barata, garrafas de vinho espalhadas no chão, bitucas de cigarro, roupas pisoteadas, vômito. Acorda na cama de estranhos, a cabeça latejando, levanta e sai de mansinho. Sobe o morro da casa dos avós descalça, maquiagem borrada, cambaleando, suja. O álcool corre nas veias, uma válvula de escape para dor, pisciana escapista,chutada da cidade natal, malditas memórias, caminha rumo a autodestruição, desmaia sobre as roupas, dá um último suspiro de saudade quando vê o painel de medalhas caído no chão, dormir é a melhor solução.

Elise tem dezessete anos, faz terapia desde os nove, vez ou outra se irrita, abandona o psicólogo. Outras  torna-se extremamente dependente, senta na cadeira, despeja, alivia, e quase tem vontade de socar a própria face até desfigura-la. Vive em guerra com a psiquiatra, mistura os remédios com álcool, desiste de tomar, meses depois volta arrependida para o consultório. Impulsividade ou compulsividade?

Elise é uma jovem frágil, encantadora,  sorriso dócil, envolvente, olhos tristes, costumam abraça-la, afaga-la, beija-la, velam seu sono, escutam suas histórias, se agraciam com os momentos de felicidade espontânea, assistem filme, dividem comida, partilham treinos, conversam. Elise é amada, é adorada, faz florescer um jardim no coração da pessoas.

Elise é uma jovem cheia de espinhos, faz sangrar quem a toca, quem a ama, olhos vazios, fala de si mesma na terceira pessoa, está sempre indo e vindo, nunca no mesmo lugar. Entra e sai da vida das pessoas sem dar explicações, desperta amor e vai embora. Deixa só o cheiro, o cheiro podre da mentira, do flerte. O tédio rege seu coração, enjoa dos lugares, dos amores, dos amigos, dos livros, das roupas, de si mesma, então some e aparece com outra persona. Só não muda a falsa fragilidade, fragilidade de menina inconstante, vacilante, devassa, sem raízes, desalmada. Ela jamais saberá  nada sobre o amor, eternamente preenchendo vazios.

Elise amou Anita, Pedro, Roberto, Júlio, Amanda, Daiane, Diana, Juan, Bruno, Peter, Saymon, Letícia, André, Caio, Luiz, Gustavo, David, Júlia, Mariana, Paulo, Chen, Sayuri, Maurício, Felipe, Thomas, Vitor, Samanta, Claudia, Ramon, Clara, Lucas, Diogo; gostou, amou, sofreu, engoliu, vomitou, esqueceu.

Elise tem uma relação ambígua com o sexo, uma relação fatal, prazer e destruição. O início machucou tanto, manchou a alma, tirou a inocência, ficou demarcado como sujo. Sêmen escorrendo nas coxas infantis.  Anos mais tarde, sexo é amor, sexo são as pessoas, as pessoas que ela tanto necessita. É sentir-se completa, é curar o vazio e a solidão, o medo e a desproteção do seu coração. Um pouco mais adiante sexo é autodestruição, é se tratar como lixo, é estapear a própria cara, é não ter prazer algum, é dormir na cama de estranhos, é só destruir a si mesma. No fim, ele virou tudo, amor, destruição, nojo, desejo, paixão, companhia, dor. Elise ainda não conseguiu separar, distinguir, limitar. O sexo é altamente perigoso na vida de Elise, faz estrago, é uma pena, ou não.

Elise lê Rubem Fonseca, Marquês de Sade, Rubem Fonseca, Chico Buarque. Não sabe descascar laranja, adora fazer bolos, prefere vinho tinto suave, ouve rock e mpb. Ama passar pano no chão, sentir o piso impecável, andar descalça em casa. Elise tem o útero podre, pés grandes, cicatrizes intermináveis. Coleciona canecas, não quer ser mãe, tem anemia, má circulação sanguínea, tendinites.

Elise matou sua gata, Elise tem uma gata. Gosta de um cara, e tem uma queda pela amiga. É masoquista, tem preferência por tapas e cortes. Sonha em se casar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo. Lê e relê poesias, come salada, vê filme pornô, tem mágoa do pai, tem pena do pai, não esquece do pai.

Elise vive em uma montanha russa emocional, se consome de extremos, auto depreciativa, melancólica, deprimida, implicante, cheia de auto culpa, auto pena, autodestrutiva, complexo de inferioridade,vingativa, manipuladora, silenciosamente agressiva, cínica, mentirosa, incontrolável, egoísta.

Elise tem várias idades, vários nomes, várias características, é relativa, reativa. Escapa dos dedos ao mesmo tempo que sufoca, te detesta, te ama, tem nojo, tem desejo, tem loucura, tem sanidade. Só não tem limites.

Elise chegará ao fim, o coração vai desfalecer, não falo de suicídio. Só prevejo uma vida breve. Intensa demais, Elise consumirá toda sua chama em pouco tempo, e vai partir como de costume, sem deixar rastros, notícias, explicações, deixando apenas o cheiro, cheiro de vida, de morte, de tudo. 


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um Dia Sem Salvação

 

Um dia sem salvação, caminha desolada, cruza as ruas sob o eco do teu choro, arde o sol sobre a face pálida, os fios de cabelo grudam no rosto, estão molhados de suor e lágrimas, pés que mais se arrastam do que andam, lábios cerrados e selados de um desespero inútil, angústia tola, menina boba, isto tem gosto de febre juvenil.
  A alma não lhe cabe, tu tens fraqueza sentimental, tens estado arredia para enfrentar a vida, enche-se de esperança, exala vivacidade, é puro amor, mas lhe falta o essencial : Força.
  Força para aguentar os intempéries da vida, os dias são repletos de baldes d'água fria, socos e pontapés, machuca-se com facilidade, morre-se com facilidade, pensamentos tornam-se patológicos, sentimentos atrofiam o coração, literalmente não estás preparada para tanto, tuas feridas não saram,  você sangra o tempo todo, vez ou outra faz um curativo violento, a euforia incontrolável de uma menina indestrutível, sorrisos intensos, sabores adocicados, beijos e abraços, suor e calor, vontade e coragem, veias que fervem, o sangue que pulsa ai dentro só pode ser outro, o corpo faz piruetas para acompanhar o ritmo, quem disse que a alma não enche um corpo? Quem disse que alma não pesa no corpo? Diz isso quem não conhece tal alma, tal corpo, tal jovem de coração atrofiado, o riso vira pranto tão fácil como o pranto virou riso.
  Senta na cadeira da terapeuta, abre a boca, o choro sufoca as palavras, a voz sai tremida, as lágrimas rolam,  pingam e respigam na mochila apertada contra o peito, tudo parece mais fácil do que encarar outro olhar, a fraqueza revelada, o ser humano derrotado, a juventude transviada, a ninfeta esquecida , a criança machucada, a mulher amedrontada, o agressor recalcado, todas as faces de uma só pessoa chorando sob a dor incalculável, a dor impalpável, a dor inexistente, esse dia é um dia sem salvação.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Como Negar A Verdade?

 Por que não posso apenas seguir minha vida e ser forte? Há tanta beleza no mundo, a vida é estupidamente bela, desgraçadamente bela, solidão que me parte ao meio, quero chorar no colo de alguém, misturar o cheiro de pele e lágrima, extasiar-me no calor humano, um coração faminto que vive a trair-me. Existe uma  porta de saída? Pois não consigo, não consigo abri-la e pedir ajudar, morro engasgada toda noite, a solidão sufoca-me a garganta, fico roxa, choro na imensidão da cama, o universo parece cair, me deixa te amar? Me deixa toca-lo, beija-lo, acaricia-lo, deixe-me amar cada parte do teu corpo, sei que no fim você não existe, e se existe jamais contarei a ti. 

Uma verdade instintiva vive entre essas metáforas, eu líricos e pseudônimos, a garota cruelmente apaixonada pelo mundo berra aqui dentro, sangra meus ouvidos, ajuda-me Deus, preciso matá-la, não consigo carregá-la dentro de mim, machuca-me, angustia-me, ela quer engolir o mundo inteiro, é bela, é meiga, é apaixonada, é urgente, imploro-te, livra-me dessa menina, mil ave-marias não podem me salvar. Preciso correr para longe de ti, para de abraçar a vida assim, para de destroçar teu coração ou ambas seremos destruídas, amadurece, não tens mais cinco anos de idade, para de amar a porra do mundo desse jeito, só para, as pessoas lá fora não estão dispostas, vão cuspir rejeição e decepção em você, por que não aprende? Por quê? Quantas vezes tenho de dizer? Se ao menos conseguisse suportar as frustrações sem enlouquecer, mas não consegue, você se quebra, se afunda, enlouquece e morre toda vez que partem teu coração, você não para de se partir, é tudo   responsabilidade sua, permite se aproximar, injeta esperança no ar, fica sorrindo, se joga de cabeça no nada, boicota tua sanidade, estou cansada, cansada de você, dou duro para manter o equilíbrio, dou duro para desapaixonamentos, tento ser racional, tento usar nossa inteligência emocional, mas garota, você fode com tudo na sua vida, June, Alice, Vanessa, Mellanie, todas nós estamos cansadas de você, esconde-la dentro de nossas peles dói muito, muito mesmo.

Meninas, vocês não sentem, sou eu quem sente tudo.
Meninas, você não existem, eu existo.
Meninas, vocês são minhas máscaras, são pedaços meus.
Todas vocês são a eu, por isso choraremos todas juntas.

É difícil me manter escondida, velada, não abrir meu coração, não parti-lo, não sofrer.  Estupidamente feliz e triste ao mesmo tempo, não desejo abandonar a vida, só que ela me quebra com facilidade. Olha pra mim, uma garota de várias expressões, mas nunca uma verdadeira. Agressiva, indiferente, passiva, serena, por que tanto esforço para esconder o que sou?
Abro meu coração, mas não demonstro.
Choro aos soluços, escondido.
Não abraço, toda noite me encolho na cama desejando um abraço.
Não elogio, não toco, não me aproximo, sinto minha pele gritando pela pele de alguém.
Vivo em constante guerra, vivo tentando conter esse furacão de emoções,  manter o controle vinte e quatro horas por dia é cansativo, fujo do meu controle,  toda vez que me permito ser uma garota de dezesseis anos me machuco.
Tenho uma visão amadurecida perante a vida, mas isso não se aplica em como lido com ela. Não há nada de especial em mim, não me vejo no direito de receber tratamento especial,  vou receber cuspida na cara como todo mundo, admito que seria agradável suportar isso com a ajuda de alguém, a infelicidade é que não acredito, não consigo ser otimista o suficiente para achar que os seres humanos não são sozinhos, estamos todos sozinhos, e morreremos todos sozinhos.
Devido ao nosso egoísmo, egocentrismo, agressividade, ingratidão e medo seremos trucidados pela solidão, é tudo nossa culpa. Seres humanos condenam a si próprios,  eu me condenei.

Mas como negar a verdade? Verdade cuspida e escarrada na alma, sou uma garotinha apaixonada, apaixonada por pessoas, livros, esportes, cheiros, sensações, paisagens, filmes, animais, cada centímetro de mim é paixão. Se sorriem , derreto, se tocam , suspiro, estou flertando comigo, sei bem o quanto tudo isso me machuca. Olha só, estou chorando, estou sangrando, estou rindo, vou ironizar cada sentimento de afeição nas próximas horas...
                          Você ri do amor, mas o amor vai te fazer chorar.
Esse homem nunca vai me amar...
 Esse homem nem sequer existe...

É claro que existe, você quer mentir para o leitor, não quer mostrar para ele que está de coração partido, é orgulhosa demais, faz rodeios e não assume o principal, essa paixão tira seu sono e te faz chorar, te faz quebrar o quarto todo, e como te conheço bem sei que não vai contar para ninguém. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Vadia

Uma vadia adolescente, uma vadia deprimida, uma vadia inteligente, uma vadia tímida, uma vadia cretina.
Eu sei quem você é, sei o que você pensa, sei o que você sente, tenho ânsias, náuseas, não me toque nunca mais, sua puta destrutiva, não sorri para mim, engole o choro falso, ou melhor, chora, para de fingir que nada te atinge.
Você trepa com o mundo, melancólica e bondosa, só aparece quando solicitada, é o tipo de mulher que não causa problemas, não pede dinheiro, não pede amor, não pede compaixão, vadia por convenção, por isso te desprezo, inútil, descarga de porra, por que perco meu tempo? Não dá a mínima para as merdas que falam de você, para as merdas que fazem com você, a voz sempre doce, um riso distante, não reclama de nada, o mundo cospe na tua cara; você sorri.
Mantém o silêncio, não procura as pessoas, não faz furdúncio, não fala alto, é quase inacreditável, não parece uma vadia, engana bem, ou engana a si mesma? Você é uma viajante no tempo, o vai e vem do corpo, o vai e vem na vida,
É medo de ser odiada? É medo de ser amada? É medo de ser machucada? Não sei, também não quero saber, não da para saber porra nenhuma! Olha no espelho, abre bem os olhos e olha tua alma, procura algo realmente verdadeiro aí dentro, revira esse lixo, há muitas respostas que não quer ouvir, abre seu coração, não suas pernas, ou melhor, ABRA... Seu depósito de porra, eu te amo, te amo com toda minha falta de inteligência emocional, há uma falha no cérebro, uma falha no caráter, mil falhas no corpo.
Pare de aparecer no espelho todas as vezes que olho para ele, eu não sou você, não quero ser você, pare de dizer que estou ficando louca, sou feliz quando estamos separadas, sou feliz sem tuas lâminas, sou feliz sem tuas bebedeiras, sou fraca sem tua força, mas posso superar.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Falando Sozinha



Anda destroçada, fatigada de amar, de repente seu coração resolveu correr uma maratona, se apega repetidamente, sucessivamente, chamas que alastram-se rapidamente, queimam, doem, ardem, desaparecem, tudo no mais pleno silêncio, sem uma única reclamação, orgulho e medo, rejeições reais ou imaginadas, ilusões que se curam com quinze dias de dor.
O excessivo controle emocional tem deixado esse peito apertado, só chora escondido, geme pelos cantos, engole emoções como pílulas para dormir...
'' Menina, é teu lado mais bonito, por que cospe tanta dor, e esconde tanto  amor? Demonstra e lida muito bem com certos sentimentos, isto é; tédio, depressão, agonia, culpa, ódio, carrega orgulhosamente um belo par de olhos entristecidos, mas quando se trata de amar, você foge, grita e esperneia, tem medo, adoece, tenta arrancar o amor de você da forma mais cruel possível, você tem medo do amor porque tem medo de ser rejeitada. Você não sabe lidar com decepções e rejeições, se passa por forte, mas nem ao menos sabes amar, você torna tudo um completo inferno, não consegue simplesmente sentir, e viver. É fraca, não aceita as emoções que dependem das pessoas, egoísmo. Não aceita o amor porque é egoísta, egocêntrica.''

'' Chega! Eu sei, sei muito bem disso. Entendes? Não preciso de uma conselheira, sei quem sou, só não sei lidar comigo. É verdade, não consigo apenas ficar em paz, me aceitar romanceada, sofrendo as pequenas e deliciosas agonias da paixão, para mim é terrível, não quero quem não me quer, ponto. Coloco expectativas demais nos detalhes, exijo de mim, exijo das pessoas, isso sem dizer uma única palavra. Sou uma cretina que acha que as pessoas são telepatas... E se elas fossem ficariam loucas comigo, e também estou cansada disso, desse meu jeito, sou um porre ambulante, escrevo achando que alguém vai me entender, que alguma alma penada sente o mesmo que eu, talvez sinta. Tenho que dizer, abrir minha boca, dizer não, dizer sim, dizer quero, dizer não quero, é assim, ou não. ''