domingo, 9 de dezembro de 2012

Vida : Diálogo 1

- Não posso entender June. Você vive me surpreendendo. Seus olhos são tristes, no máximo se tornam serenos. Falta paixão, falta vivacidade, falta alegria. Por que insiste em viver?

- Eu estou tão viva. Viva de todas as maneiras possíveis, por isso meus olhos são tristes, a vida é triste meu caro, não tem sentido, e apunhala todo mundo pelas costas. O grande mistério da vida é suportar a dor, é forçar os músculos da boca para sorrir no momento em que se está completamente destroçado, estamos sempre destroçados, aniquilados, a dor é rainha de todas as almas.

- E a felicidade?

- A felicidade é um grande engano, charlatanismo. Felicidade do latim felicitas vem de felix, ditoso, afortunado, feliz. Sou afortunada por tudo que vivi, mesmo nas experiências mais massacrantes, elas me deram a visão de mundo que tenho hoje. Sou ditosa, tenho muita sorte, pense bem, já fiz coisas horríveis comigo, sobrevivi, meu corpo é forte, minha alma continua esperneando, na real concepção da palavra eu sou feliz, na visão distorcida da sociedade, sou uma louca deprimida. Ponto de vista, o problema da nossa sociedade é considerar certo o que a maioria faz. A maioria não erra, quer frase mais idiota. '' A voz do povo é a voz de deus.''

- Desgraçada. Devia ter me falado isso antes... Antes que eu tentasse me matar com veneno, abrisse um rombo no estômago. E uma infecção por H. Pylori   causasse câncer.

- Você se esforçou para morrer, isso é uma forma de viver, só não é a melhor. Algumas pessoas amam a morte, só que todo amor queima, incendeia, esfumaça, por fim morre. E o seu em que pé está?

- Quero morrer. Viver é um ato heroico, e eu não sou um herói.

- Que assim seja, não sei consolar pessoas, a realidade insiste em queimar meus lábios. A vida é assim, é escolha nossa vive-la ou não, não existe guichê para reclamação. Sou apaixonada por você, e você é apaixonado pela morte.

- Você também era.

- Não, não sou apaixonada pela morte, no entanto, sou verdadeiramente apaixonada pela dor, o que me obriga escolher a vida.

- Parti seu coração.

- Já parti tantos que perdi a conta há muito tempo, é comum. O que seria da arte sem corações partidos?

- Você tem resposta para tudo. Me diga, o que é o amor?

- Sei três coisas sobre o amor. Não é eterno, é puro sofrimento e faz parte da essência humana. Não tenho medo do amor, entrego-me, pois sei que amor chama, depois fumaça.
O amor nasce e morre como todos nós, diferente do que pensam ele não nos liberta da solidão, mesmo quando amamos, continuamos sozinhos, ninguém pode preencher você. Ninguém foi destinado para você, não existe um destino, caminhamos descontrolados pela estrada da existência, pessoas se cruzam, mas uma hora seguem caminhos diferentes.

- June, por que não diz logo que somos todos completamente loucos? 

- Não tive tempo.

- A cada dia que passa você vem perdendo o que resta da sua fragilidade, ela é tão bonita. 

- Fragilidade e vida não combinam. É necessário força para aguentar tantas feridas, só os fortes sobrevivem.

- O mundo tem sete bilhões de pessoas, com toda certeza nem todas são fortes, e estão vivas. 

- Respirar não significa viver.

- Significa que já estou morto? 

- Só você pode responder.

A jovem deu um breve sorriso, pousou uma das mãos no rosto dele, acariciou por alguns segundos :

- Independente do que escolher, espero que ame sua escolha.

- Você faz veneno ter gosto de chá de framboesa. 

Soltou um riso baixo, um riso quase melancólico, levantou-se devagar mantendo os olhos fixados nos traços pálidos do jovem, era hora de dizer adeus, no final cada um faz sua escolha sozinho.

- Minha avó dizia que a consciência da morte nos faz divagar.

- Só porque falei do chá de framboesa? 
- Sim.

-  É o sabor mais suave e adocicado que consegui imaginar. 

- Bobo, eu preciso ir.

Andou até a porta pensando sobre o que pensar, autoconsciência é mais complicado do que se imagina, tentar ser imparcial ao ver o próprio coração se debatendo como um peixe fora d'água é no mínimo angustiante.

- Será que eu consigo desligar os aparelhos sozinho? 

Cerrou os lábios, colocou a mão na maçaneta, antes de vira-la olhou para trás.

- Consegue, espere que eu saia. Pense na vida com sabor de framboesa, adeus.

Girou a maçaneta, puxou a porta e saiu da sala. Ficou alguns segundos parada do lado de fora da sala até escutar o apito estridente e contínuo do monitor cardíaco.

- Algo que esqueci de mencionar sobre o amor : Ele não salva ninguém.


Saiu andando pelo corredor principal até desaparecer por uma entrada qualquer. Era hora de desfrutar da própria dor para continuar vivendo, ela sempre continua, engole a fragilidade e segue seu caminho. Viver é assim, sofrer da melhor maneira possível, há quem acredite em outras hipóteses, pois bem, cada qual com seu ideal.  



sábado, 8 de dezembro de 2012

Imaginação; de férias
Mente; cansada
Poeta; sem talento
Palavras; inúteis
Caderno; vazio.