sexta-feira, 31 de maio de 2013

Elise







Elise tem dezessete anos, é uma lutadora, treinou com afinco por cinco anos, deu o melhor de si, chorou de cansaço, teve inúmeras lesões, ganhou campeonatos, treina com homens, chutes altos, fortes, giratórios, solta joelhadas e cotoveladas para todo lado. Ela ama o que faz, morreria por isso, morreria sem isso. Semana passada descobriu que está com condropatia patelar, desgaste na cartilagem do joelho, é irreversível, Elise não pode mais lutar.

Elise dezessete anos, é bulímica, está acima do peso, passou cinco anos purgando o excesso de comida com exercícios físicos até conseguir lesionar todas as partes do corpo, tornozelos, pulsos, joelhos, coluna. Oscilava de cinco a seis quilos por semana, ganhava e perdia, era incansável e dilacerante.
Atualmente, tem feridas de ácido gástrico nas mãos, engole cartelas e mais cartelas de laxantes, seus cabelos fedem a vômito, dentes desgastados, feridas na garganta, a dieta da nutricionista está em cima da mesa do computador, ela tem consulta amanhã, se olhou 66 vezes no espelho hoje.

Elise tem doze anos, é a típica lolita, ninfeta dos cabelos loiros, traços juvenis, quadris bem feitos, coxas grossas, cintura fina, bumbum macio, seios pequenos, bochechas coradas, exala vivacidade, adora brincar, ler, ver televisão, colecionar álbum de figurinhas. Costuma usar sainhas de prega, ou shortinhos, cabelos trançados.
É bastante  atrapalhada, está sempre tropeçando, derrubando os livros, os homens costumam ajuda-la, não entende o porquê, não aparentemente, mas no fundo, quase que naturalmente, sabe o poder que exerce sobre eles, faz questão de abrir um belo sorriso, bem meiga. Vive uma paixão secreta com seu professor, procura incessantemente por um papel masculino protetor, angelical e demoníaca.

Elise tem quinze anos, é sua terceira internação psiquiátrica, os músculos do pescoço fazem movimentos involuntários, o haldol lhe causou distonia, chora e implora por ajuda. Os dias se arrastam, tem vários diagnósticos e no final não tem nenhum. A psiquiatra assina a papelada, quarenta e sete dias trancafiada, presa na '' Torre da Rapunzel''.

Elise tem catorze anos, bebe todos os dias, o quarto fede a pinga barata, garrafas de vinho espalhadas no chão, bitucas de cigarro, roupas pisoteadas, vômito. Acorda na cama de estranhos, a cabeça latejando, levanta e sai de mansinho. Sobe o morro da casa dos avós descalça, maquiagem borrada, cambaleando, suja. O álcool corre nas veias, uma válvula de escape para dor, pisciana escapista,chutada da cidade natal, malditas memórias, caminha rumo a autodestruição, desmaia sobre as roupas, dá um último suspiro de saudade quando vê o painel de medalhas caído no chão, dormir é a melhor solução.

Elise tem dezessete anos, faz terapia desde os nove, vez ou outra se irrita, abandona o psicólogo. Outras  torna-se extremamente dependente, senta na cadeira, despeja, alivia, e quase tem vontade de socar a própria face até desfigura-la. Vive em guerra com a psiquiatra, mistura os remédios com álcool, desiste de tomar, meses depois volta arrependida para o consultório. Impulsividade ou compulsividade?

Elise é uma jovem frágil, encantadora,  sorriso dócil, envolvente, olhos tristes, costumam abraça-la, afaga-la, beija-la, velam seu sono, escutam suas histórias, se agraciam com os momentos de felicidade espontânea, assistem filme, dividem comida, partilham treinos, conversam. Elise é amada, é adorada, faz florescer um jardim no coração da pessoas.

Elise é uma jovem cheia de espinhos, faz sangrar quem a toca, quem a ama, olhos vazios, fala de si mesma na terceira pessoa, está sempre indo e vindo, nunca no mesmo lugar. Entra e sai da vida das pessoas sem dar explicações, desperta amor e vai embora. Deixa só o cheiro, o cheiro podre da mentira, do flerte. O tédio rege seu coração, enjoa dos lugares, dos amores, dos amigos, dos livros, das roupas, de si mesma, então some e aparece com outra persona. Só não muda a falsa fragilidade, fragilidade de menina inconstante, vacilante, devassa, sem raízes, desalmada. Ela jamais saberá  nada sobre o amor, eternamente preenchendo vazios.

Elise amou Anita, Pedro, Roberto, Júlio, Amanda, Daiane, Diana, Juan, Bruno, Peter, Saymon, Letícia, André, Caio, Luiz, Gustavo, David, Júlia, Mariana, Paulo, Chen, Sayuri, Maurício, Felipe, Thomas, Vitor, Samanta, Claudia, Ramon, Clara, Lucas, Diogo; gostou, amou, sofreu, engoliu, vomitou, esqueceu.

Elise tem uma relação ambígua com o sexo, uma relação fatal, prazer e destruição. O início machucou tanto, manchou a alma, tirou a inocência, ficou demarcado como sujo. Sêmen escorrendo nas coxas infantis.  Anos mais tarde, sexo é amor, sexo são as pessoas, as pessoas que ela tanto necessita. É sentir-se completa, é curar o vazio e a solidão, o medo e a desproteção do seu coração. Um pouco mais adiante sexo é autodestruição, é se tratar como lixo, é estapear a própria cara, é não ter prazer algum, é dormir na cama de estranhos, é só destruir a si mesma. No fim, ele virou tudo, amor, destruição, nojo, desejo, paixão, companhia, dor. Elise ainda não conseguiu separar, distinguir, limitar. O sexo é altamente perigoso na vida de Elise, faz estrago, é uma pena, ou não.

Elise lê Rubem Fonseca, Marquês de Sade, Rubem Fonseca, Chico Buarque. Não sabe descascar laranja, adora fazer bolos, prefere vinho tinto suave, ouve rock e mpb. Ama passar pano no chão, sentir o piso impecável, andar descalça em casa. Elise tem o útero podre, pés grandes, cicatrizes intermináveis. Coleciona canecas, não quer ser mãe, tem anemia, má circulação sanguínea, tendinites.

Elise matou sua gata, Elise tem uma gata. Gosta de um cara, e tem uma queda pela amiga. É masoquista, tem preferência por tapas e cortes. Sonha em se casar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo. Lê e relê poesias, come salada, vê filme pornô, tem mágoa do pai, tem pena do pai, não esquece do pai.

Elise vive em uma montanha russa emocional, se consome de extremos, auto depreciativa, melancólica, deprimida, implicante, cheia de auto culpa, auto pena, autodestrutiva, complexo de inferioridade,vingativa, manipuladora, silenciosamente agressiva, cínica, mentirosa, incontrolável, egoísta.

Elise tem várias idades, vários nomes, várias características, é relativa, reativa. Escapa dos dedos ao mesmo tempo que sufoca, te detesta, te ama, tem nojo, tem desejo, tem loucura, tem sanidade. Só não tem limites.

Elise chegará ao fim, o coração vai desfalecer, não falo de suicídio. Só prevejo uma vida breve. Intensa demais, Elise consumirá toda sua chama em pouco tempo, e vai partir como de costume, sem deixar rastros, notícias, explicações, deixando apenas o cheiro, cheiro de vida, de morte, de tudo. 


5 comentários:

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  2. Como você mesmo disse, Elise é uma invenção, é só uma dramatização, eu não sou Elise.

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  3. Mas sou estúpida o bastante para acreditar nas mentiras que você me conta!

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  4. Não me culpe, eu só tento fazer com que as mentiras se tornem verdades, se você não está com a mesma disposição, não posso fazer muita coisa.

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