quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amargura Eterna


                   
Há em mim um vazio imensurável, uma insatisfação doentia, todos os dias acordo com vontade de nunca ter dormido, com vontade de nunca ter existido realmente. Há em mim uma dor constante e sem motivo, toda e qualquer felicidade parece me definhar, sorrisos entristecem-me, risos tornam-se agonias em meu peito, sou pura em amargura, quase que a própria, o menor resquício de esperança, ternura ou alegria irrita-me de um modo desumano.
Tenho vontade de partir ao meio os bebês risonhos, vontade de arrancar os corações dos casais apaixonados e espremê-los até virarem apenas uma carniça destroçada. Tenho ainda mais vontade de azedar os lábios dos felizes, ou melhor dos pseudo-felizes, dos que fingem para si mesmos de forma brilhante e incontestável, gostaria de dissecar as memórias de cada um, para então vomita-las enojada. 
Tenho vontade de estuprar as virgens puritanas, vontade de espalhar para todas as crianças que os monstros debaixo da cama são na verdade seus pais.
Tenho uma vontade mórbida de que uma doença mate todos nós, uma vontade melancólica de que as pessoas percam todos que julgam amar. 
Desejo que as flores murchem, que o bonito fique feio, que o sol perca seu brilho, desejo poesia sem rima, comidas sem sal, uma vida sem boas lembranças, um mar sem peixes, uma igreja sem fiéis, que haja somente solidão para todos os homens, que eles a enxerguem verdadeiramente,  pois ela está entre nós,  está em todos nós, eu sou uma medium nessa instância, vejo as solidões vagando no mundo. 
Deito na cama mas não posso dormir, olho no espelho e não posso sorrir, meu semblante não nega meu estado de espírito, o corpo já não luta mais, fios de cabelo caem dia após dia sem parar, minha boca ganha um contorno mais triste, e meus olhos um tom mais agressivo, mais sensível a realidade mentirosa por trás da nossa vida, da nossa morte, da nossa existência.  
Eu não posso agradecer por existir, eu sou um cuspe, um cuspe sarcástico e entediado de deus, não fui consultada, não há sentido na minha existência. E o pior de tudo, eu sou como todo mundo, estou na mesma embarcação furada, vou nadar e nadar até a maré sem nunca conseguir alcançá-la, mas também não vou morrer.
Não é que eu deseje o mal de todos, eu só não aguento mais existir desse modo mesquinho, vazio, e realista. Eu não quero mais existir de qualquer modo, o que mais me angustia é almejar algo tão impossível.  Nunca haverá fim. Serei eternamente um monstro amargurado e condenado. Sangue carmesim, que dor sem fim! 

 

Um comentário:

  1. A vida eh uma droga ambulante, nos suga até deixar agente definhando no fundo do poço, sem conseguir subir mais.

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