sábado, 22 de setembro de 2012

Tolo do Amor

As pessoas projetam no amor algo tão fantástico e divino, quando na verdade é tão humano e simplório. 
Diversos relacionamentos frustados, solidão, promiscuidade, a busca incessante por um sentimento indecifrável, o mal de todos é procurar no amor a cura para todos os males...
Amor não é milagre, amor é construção, amor é fogo, amor é paciência, amor é virtude, amor é clichê. Não é anjo alado, deus dourado, ou qualquer coisa assim... 
Ele passa, você não vê. Você vê , mas não entende. Entende, mas não cultiva, que maldito filme fez você acreditar que amor é estrela de cinema? Ele é só escritor de gaveta, filósofo de janela, psicólogo de bar. 
Bate à porta como um mendigo esfomeado, um pecador martirizado, um deus injustiçado, você fecha a cara, desmerece, chora, diz que sua vida é uma merda, você é o tolo dos contos de fada, o tolo da vida, o tolo da razão, o tolo das pessoas, o tolo da paixão, misericórdia pessoa! Seja o tolo do amor! 

domingo, 9 de setembro de 2012

Devoradora de Corações


 - Você tem o direito de ficar com raiva.
 - Nunca sentirei raiva de você... Você já faz isso muito bem, disse entristecido.
 - O que eu faço muito bem? Ter raiva de mim?
 - Você tem raiva de si mesma, por isso afasta todos que te querem bem.
Os olhos inundaram-se até transbordarem, cerrou os dentes para aguentar as pontadas que sentia no peito, a ré tinha um semblante triste, desses de fazer pena, desses de destroçar qualquer sorriso. O homem chorava junto, abandonado pela amada por um motivo abstrato, confuso, tão crucial para a jovem.
- Adeus! Levantou-se com lágrimas nos olhos, seus passos eram digno de um homem que carregava um fardo de dor nas costas. Jamais entendeu o porquê de tanto pesar ao mandar as pessoas embora de sua vida, estaria ela equivocada? Amou a todos e não sabia?
Olhou apenas uma vez para trás, seus olhos se encontraram, havia dor e culpa dentro dela.
- Eu estou cansada... Cansada de ser devoradora de corações. Cravou as unhas no pescoço descendo-as brutalmente pela pele exangue, as unhadas eram vermelhidões ardidos.
Foi assim que Louise, a devoradora de corações, a jovem mais viva e intensa de Vienne foi esmorecendo, enjaulou-se solitariamente em um mundo só seu. Os livros na cabeceira da cama foram aumentando, álcool, cigarros, não se permitia ver a luz do dia, nem ouvir o canto dos pássaros, não sorria, não chorava.
Os pais da jovem já não sabiam mais o que fazer, abandonara a escola, o hipismo, não saia de casa, passava horas a fio dentro do quarto. Comia, bebia, e fumava demais, inúmeras vezes Dona Heloísa encontrou a jovem dormindo no próprio vomito. Não havia uma explicação aparente para tudo aquilo.
Apesar de desde criança ter sido muito empática, nostálgica, melancólica, era uma pessoa mentalmente saudável, ou parecia. Esse parecia destrói tantas vidas...
Recusava qualquer tratamento, apenas dizia não e se retirava, uma apatia aparente tomava conta de Louise.
- Você está doente minha filha.
- É claro que estou! Estou com um caso grave de desnutrição, há tempo não devoro meu alimento essencial :  corações partidos!
- Está ficando doida da cabeça, se aprume pelo amor de Deus menina! Você tem  uma semana para sair desse quarto de vez e ir viver, ou vou interna-lá meu bem!
Não estava disposta a quebrar o pacto que fizera consigo mesma, mas naquela noite com muitos esforço os pais a tiraram de casa. Seus passos eram lentos, em meses não ousou gozar dos prazeres da noite, a luz da lua ofuscou seus olhos, o solstício de verão trazia consigo noite estrelada e chuva gostosa.
Louise tinha um encantamento natural típico de piscianos, o corpo encharcado junto dos lábios avermelhados atraiam muitos olhares dentro da lanchonete, foi até o balcão pedir uma dose de vinho quando foi surpreendida por uma voz.
- Olha se não é a bela flor muda de Vienne!
A voz forte era de um jovem homem loiro, Pierre era psicólogo na clínica de saúde mental da cidade, Louise fora designada para ser sua paciente, no entanto não aparecia nas consultas.
- Viver isolada em uma torre não vai te poupar dessa dor maldita!
- Que amável. Sorriu ironicamente.
Depois de duas horas de conversa ela descobriu que é impossível viver sem sentir, sem amar, sem fazer amar. É dada a hora drástica, enquanto caminhava pela avenida pensava em um jeito de acabar com tudo, não queria morrer, não queria viver. E o mais importante :  Não queria sentir. Diabos de menina tola!
Parou no meio da calçada por alguns minutos, caminhou até a guia, era o limite do sentir.
 - Como dizia Álvares de Azevedo. '' Deixo a vida como deixo o tédio.''
Fechou os olhos abraçando a rua, jogou-se em direção a um carro.
Meus caros leitores, poderia chamar de sorte o fato dela sobreviver, mas não! Ela nunca quis morrer, ou teria se jogado na frente de um caminhão. Queria matar suas dores, seus medos, e principalmente suas lembranças.
O carro estava em uma velocidade mediana, a colisão rendeu-lhe pontos na cabeça, algumas fraturas, e uma internação psiquiátrica. 

O residente de psiquiatria deixou o diário sobre a mesa voltando-se para seu superior.
- É curioso o modo que ela fala sobre si mesma. Há quanto tempo ela está aqui?
- Três anos.
- Por que três anos? Não é um caso tão grave senhor.
- Desde que acordou do breve coma Louise não pronunciou uma única palavra, isso dificulta muito seu tratamento. E sempre que observamos uma notável melhora ela piora novamente. Minha conclusão é :

Ela conseguiu o que queria, não morreu, mas conseguiu um meio para não sentir tão afogueadamente. Aqui não precisa interpretar papéis, não sofre com dores de amor, não tem decepções, não vê a lamúria do mundo, não precisa provar do amargo gosto da realidade. Passa os dias lendo, escrevendo, montando quebra-cabeças, vivendo da própria fantasia. Meu caro, a única doença de Louise é seu coração. E sua mente foi tão genial que aprendeu a sufoca-lo, esconde-lo, mata-lo de alguma forma. Preciso ir, boa sorte! Deves ir vê-la, não a force para que fale, da última vez que fiz isso ela me atacou com um garfo, apesar das vistorias nunca se sabe. Até mais tarde.
Johnny dirigiu-se para o quarto da paciente, observou-a por alguns minutos, avaliava sua expressão corporal, bateu na porta que estava aberta.
- Posso entrar senhorita?
Não houve resposta, levantou os olhos castanhos-esverdeados para o médico. E não gostou da bondade nos olhos dele, era tão mais fácil tocar seu coração daquele modo, abaixou a cabeça.
- Como é seu nome mocinha?
- Me chamava ex-devoradora de corações até você chegar.
Ficou surpreso em ouvir sua voz, após três anos ela escolhera falar logo com ele. Tinha olhos adoráveis, uma beleza encantadora, longos cabelos negros, lábios corados. A história recomeça. 

" Sou a devoradora de corações, eu amo e não sou amada. Sou amada e não amo. Na maioria das vezes a segunda opção, e a mesma me faz sofrer mais que a primeira. Meu coração é uma planta carnívora, intensa, viva, pulsante. Homens, mulheres, animais, livros, músicas, lugares, são todos vítimas do meu amor e desamor repentino. 

sábado, 1 de setembro de 2012

Meus textos não foram escritos para serem amados.
    Vomitados, cuspidos, escarrados!
É o pior de mim em uma prosa sem fim.