domingo, 19 de agosto de 2012

Instinto Mortal - Parte 1


Um caso com poucas páginas e muitas dúvidas, havia um ponto de interrogação no final de cada frase. Extrema é uma pequena cidade no sul de minas escondida na Serra da Mantiqueira, os habitantes apesar de aterrorizados permaneciam calados, dois agentes estavam desaparecidos, respirou fundo cheio de pesar, era sua vez de entrar em ação.
Saymon trabalhava no departamento de investigação em Belo Horizonte, foi aconselhado a arquivar o caso, pessoas desaparecidas em uma cidade esquecida não parecia um problema para polícia. No entanto seu instinto por justiça falava mais alto, sua mente amarga suspeitava de algo verdadeiramente obscuro.
Decidido a revolver o caso sozinho deixou o escritório, pediu licença de duas semanas alegando problemas pessoais, era um detetive brilhante, e como todo homem brilhante vivia na tênue linha entre a genialidade e a loucura. Partiu logo que amanheceu, urgência era uma característica da sua personalidade excêntrica.
Passou oito horas dirigindo, observava a paisagem pela janela, montanhas, cachoeiras, cavalos, de alguma forma isso o extasiava, a natureza era o início de tudo, era a única coisa que podia explicar e exemplificar seu instinto animal rugindo no peito.
Hospedou-se no principal hotel da cidade, era tudo bem simplório, nunca fora um homem de luxo, deixou suas malas no quarto, desceu para recepção tomando uma grande xícara de café amargo, precisava vencer o cansaço, tinha muito trabalho a fazer.
A pista mais crucial era um casarão há um quilômetro do centro, passou os dois primeiros dias fazendo perguntas para as famílias dos desaparecidos, depois começou a fazer investigações com pessoas aleatórias.  A cada dia que passava as coisas ficavam mais confusas, todas as vítimas eram do sexo masculino, idades aleatórias, todos ali eram religiosos e místicos em demasia, no olhar de cada um havia um medo irrefutável. Medo do sobrenatural, acreditavam em lobisomens, mulas-sem-cabeça, espíritos, fúria divina, encerrou as perguntas dirigindo-se para o casarão.
A estrada de terra levantava uma poeira desgraçada, de longe avistou o casarão que ficava em uma pequena fazenda, desceu do carro observando o local ao todo. Bonito, abandonado, gelado! Uma senhora alimentava os cavalos debaixo de uma grande árvore.
Fechou o zíper da jaqueta de couro, tinha trinta e dois anos, um homem de beleza desgastada, porém ainda  tirava os ar de muitas mulheres com seu olhar misterioso, a expressão séria, possuía um porte forte, seu maior charme era sua amargura, lobo solitário.
- Com licença senhora, poderia falar alguns segundos comigo?
A velha levantou a cabeça com uma expressão triste no rosto, ela sabia o que acontecia naquela casa, foi uma certeza que Saymon captou em seus olhos rapidamente.
- O que você quer meu filho?
- A senhora mora aqui? Sou investigador, pessoas desapareceram, e todas elas foram vistas por aqui, ou vieram visitar esse lugar antes disso.Posso entrar no casarão?
A mulher aparentava ter mais de sessenta anos, levou a mão enrugada até a face do homem, fitou seus olhos de forma profunda.
- A questão não é entrar, e sim nunca sair meu filho! Vá embora, ninguém pode lutar com o diabo vestido de anjo! Sua voz tinha um tom desesperado, ninguém seria capaz de convence-lo a desistir. Aprendeu a nunca desistir. Abriu um sorriso amarelo, trinta minutos depois estava subindo as escadarias. A grande porta de madeira estava entreaberta.
- Boa tarde. Tem alguém em casa?
Foi adentrando a sala devagar, móveis clássicos, decoração colonial, poeira por todos os lados. Chamou várias vezes, ninguém apareceu, deu-se por vencido começando a explorar a sala, uma vasta coleção de livros na estantes do grande cômodo, caminhava lentamente, atento a alguns títulos quando foi surpreendido por uma voz dócil.
- Boa tarde tio! O que quer aqui?
Saymon deparou-se com um corpo esguio, olhos intensos, sorriso angelical, longos cabelos dourados, olhos verde-floresta. Traços delicados, não pode evitar observa-la por inteiro, pele alva, cintura delineada, não podia ter mais que dezesseis anos. A voz foi engolida por uma sensação monstruosa, um medo que ele não costumava sentir.
- Olá senhorita! Sou investigador.
- Veio atrás dos desaparecidos?
- Eles estão aqui?
- Não sei. Não sei nada do que acontece por aqui.
- Sua família se encontra?
- Papai está viajando. Estou sozinha.
- Há quanto tempo?
- Dois meses.
Foi convidado para sentar,  teve uma longa conversa com Alice, tinha quinze anos, morava com seu pai, a mãe fugiu com outro homem quando ela ainda era um bebê. O pai era professor aposentado, a fazenda era herança do bisavó que morrera há vinte anos.
Uma obscuridade escondia-se entre as paredes da casa, um homem abandonado pela mulher, um bisavô carrasco, e uma menina perturbada... Tão inteligente, diferente... E linda! Estava no caminho certo, na pista certa, mas como todo homem estava prestes a ser traído pelo próprio coração, pelo próprio instinto carnal.


domingo, 5 de agosto de 2012

Amor Distante.



Eu amo você, mas o amor as vezes não é o suficiente. Você me deixa com tanta fome, estamos sozinhos. Solitários. Eu preciso dizer adeus, um adeus que já foi dito pelo seu coração. Queria nunca ter te conhecido, talvez assim meu corpo não chorasse de saudades suas.
Passo os dias a chorar sozinha, a lamentar sua distância, meu sorriso é tão frágil, seu cheiro no meu travesseiro me faz encolher como uma criança com medo do bicho papão, tenho medo de ficar sempre assim tão só, mendigando as migalhas que você me dá.
Planejamos uma história tão bonita, cheia de imperfeições, mas ela se tornou uma perfeita chatice, poucas palavras, muitos desencontros, nenhuma imaginação, nada de aventura, é uma completa solidão a dois.
Somos tão diferentes? Minha vó dizia que os opostos se atraem, mas não continuam. Eu não quero seu meio amor, quero algo que me tire o fôlego, que me faça chorar de ciúmes, de raiva,  não de solidão.
Possuo um coração carnívoro, se fica com fome começa a me devorar de dentro pra fora, toda vez que ele  grita de fome e você não ouve, sinto seus dentes vorazes rasgando minha pele, sugando meu sangue, devorando meus órgãos, devora o amor que tenho por ti, feridas vão se criando por todos os lados, tudo que sinto vai se transformando em dor, o meu belíssimo sentimento vai se esvaindo, vai sendo sugado pelo órgão esfomeado.
Se o amor começa morno ele acaba precocemente congelado, o vento gelado da noite vem soprando amargas palavras, diz que devo deixa-lo.
- Por que amas algo que lhe trás tanto sofrimento? É sensato partir.
- Ainda há esperança, quem sabe meu amor não incendeie suas brasas?
- Tristes esperanças que as pessoas tem ao amar.
- Vá-se embora, deixe-me dormir.
- Aconchegue-se com  a saudade de um homem que não estás a sentir sua falta nesse momento. Você ama pelos dois.
- Não importa, no fim sou só uma menina, não sei o que é o amor.
- Julieta tinha treze anos.
- Só se morre de amor no cinema.
- Na vida real a cada amor perdido, uma parte do teu coração morre, cuidado menina. Seu coração podes morrer cedo demais!
Fecho os olhos como se isso evitasse que a voz do vento chegasse aos meus ouvidos, voz que na verdade vem de mim, da minha dor, das minhas dezesseis primaveras, dos meus vários amores fracassados.

Eu te amo, as vezes parece que amo um fantasma, ainda sim eu amo. Vivo um amor imaginário? Seria menos doloroso saber que é apenas um de meus devaneios, curo loucura com mais loucura, no entanto, você é real, abri mão da minha insanidade por você, não tenho para onde fugir, quem sabe para onde o próximo trem pode me levar? Adeus. Meu amor, meu homem, meu bebê, meu amante, ah como eu te amo!