domingo, 22 de julho de 2012

Insanidade

Que belo sorriso. Quantos dias ele durou hein? Pobre menina, podes me sufocar por um tempo, eu voltarei. Sempre volto. Estou dentro de você, nem todas as forças do universo podem me parar. A vida lhe sorri, seres humanos dizem palavras esperançosas, o amor te doma como uma cadela, esse coraçãozinho infla de esperança, assisto essa cena patética por dias, muitas vezes não contenho o riso irônico precedido de uma pontada de dor, sei o final desse clichê.
Em uma manhã qualquer você recebe novamente a cusparada.


 - A vida adora cuspir ácido na minha cara. Ouço sua voz dolorida e revoltada.
- Ela cospe na cara de todo mundo. Digo sorridente deitada na cama, observo seus traços tomarem forma, é triste, eu não devia sorrir da desgraça alheia, mas querida, amo-te. Eu realmente amo-te, quando resolve ignorar-me, fico pálida, ressentida, tão machucada quanto esse órgão que tens no peito. Capto seu sorriso falso no espelho, os olhos profundamente vidrados, tu não não podes viver sem mim. Caminho lentamente, sinto-me aquecida, o caos está por vir, não há lágrimas em seus olhos, a dor corre em suas veias, sua essência sou eu. Em pouco tempo estou de volta, mais forte do que nunca. Eu sou sua insanidade menina.


- Não somos a mesma pessoa, mas temos as mesmas lembranças. Odeio as pessoas. Elas me criaram. Nasci através de trauma e dor, causados por ela. Você odeia a vida,  foi criada pela mesma. Sua sanidade momentânea é que te mata sabia?


- Eu não quero você. 
- Isso nunca foi questão de escolha.


Luta, luta tanto, só eu sei, pois sou sua adversária invisível, enquanto a vida lhe da socos, pontapés, vou sorrateira mastigando sua mente, acorrentando seus pulsos, quando a fera está domada, nos revoltamos contra a vida juntas, percebeu a ironia?
Pois se seu inimigo é a vida. Você procura a morte. Consciente ou não.
Não há lógica nisso.
Por que alguém odeia a vida? Onde há ódio, há amor. Um louco amor.
É aí que entro, humanos, meus criadores, e criaram-me através da jovem Dolly.


Eu quero ela viva. Só assim podemos destruir os humanos, é difícil mostrar para um coração de dezesseis anos que os reais culpados de sua insanidade são os de sua própria espécie, em especial os que ela mais amou.
Todos ao seu redor serão afetados, ninguém vai escapar da minha fúria, vão temer, vão abandonar Dolly. Querendo ou não vai machuca-los. Eu comando Dolly, me alimento de sua dor, de suas lembranças. Sou feita de tudo que ela rejeita. Não sou a causa do incêndio, mas sou o vento que alastra. 


Dolly é conhecida por matar tudo que ama, boicotar a própria felicidade.
Desculpe-me, mas o que posso fazer? As vezes tenho de jogar sujo, o amor suga Dolly, suga todo meu alimento. Sou um vírus parasita, cuide-se, o próximo pode ser você. Feridas criam monstros, você está ferido? Eu estou. Sou a insanidade de milhares de humanos, e posso ser a sua, se outros humanos me permitirem.





3 comentários:

  1. Você que escreveu? Belíssimo!

    ResponderExcluir
  2. Fui eu sim. Obrigada, elogios literários vindos de você são ótimos.

    ResponderExcluir
  3. Deixe de me endeusar. Não sou tão bom quanto me julgas. Nem tenho tanta carga literária assim.
    Falando em carga literária, você gosta de ler no pc ou tem como imprimir coisas? Tenho uma porrada de bons livros pra te mandar. Se você souber baixar por torrent...

    ResponderExcluir