domingo, 20 de maio de 2012

Maldição


O espelho não mente, sou uma lolita em decomposição, a circunferência das coxas cresceram, as maças do rosto não são tão vermelhas, os cabelos escureceram, as tranças deixaram de ser meigas. O batom vermelho é  só um batom comum, os olhos não brilham como antes. Todos sabemos que o prazo de validade é curto, ser lolita é uma maldição cruel. O corpo envelhece, o coração continua o mesmo, os babados e laços continuam vestindo sua alma. Seus antigos homens cuidam agora de outra lola, vão ser sempre homens, com as mãos rudes, e nós? O que seremos agora? Velhas ninfetas? Por que fomos condenadas a envelhecer tão cedo? A maioria das mulheres orgulha-se de seu jovem corpo adulto, seus seios formados, seus longos cabelos, o quadril desenhado, a liberdade, e uma porcentagem fica perdida, perdida no vazio que é crescer, o tempo é infernal para todos, mas para as meninas-ninfetas ele é ainda mais doloroso, você fecha os olhos e acorda velha, velha demais para mostrar a língua, para impressiona-los com tamanha sedução ainda sendo quase uma criança. Uma das perguntas feitas nessa fase final, o morrer dos dezesseis anos. Eu nasci assim? Ou um homem tornou-me assim? Fui tocada por um homem ainda criança por ser uma ninfeta? Ou tornei-me uma ninfeta por ser tocada por um homem ainda criança? Minha pele tinha cheiro de pêssego, gosto de paixão, gosto de mimo, e de entusiamo infantil, tudo isso foi engolido pelo passar dos anos, rápidos anos, no máximo cinco ou seis.
Eis um fato.
Sempre fui triste.
Agora sou triste, e meu corpo está morto, e ele era minha única forma de prazer. Minha única forma de sorrir, de brincar e manipular, de tentar direcionar minhas mágoas. É quase certo que não poderás entender esse texto, se entender. Sinto em dizer,mas você faz parte dessa maldição, sendo Lolita, ou sendo Humbert.Queria muito encontrar uma mulher de cinquenta anos que foi uma de nós, e perguntar como ela conseguiu chegar lá. Já encontrei algumas mais novas por aí, internadas em hospitais psiquiátricos, dentro de bordéis, na lista de suicídios. Os gemidos, os romances, minha natureza dupla, sempre foram meu maior inferno,mas quem disse que sou melhor sem eles? E que consigo viver sem eles? Só mais uma de várias, que perdeu o sono, e sofre amargamente por não ter como ter o tempo de volta. Sim, tenho afeição pela dor,mas nunca tive afeição pela morte, e eu morri! Para uma lolita eu morri! E nada pode me ressuscitar.

Um comentário:

  1. Realmente as lolitas estão sempre em desequilíbrio em relação ao restante do mundo, o que então poderá fazer para mudar isto? Infelizmente são tantas mágoas acumuladas que desanimam, tiram vontade de viver, porém há outras felicidades na vida, e tenho certeza valerá a pena passar por elas.

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